Eunápolis não tem condições de gerir o Hospital Regional

09 de Jan de 2013

Gestão Ultrapassada (Por Rose Marie Galvão)

Por Rose Marie Galvão


Foto: Arquivo/RADAR64
O quadro de pessoas agonizando na porta do hospital é um verdadeiro “Inferno de Dante”

A situação do Hospital Geral de Eunápolis não é gatinha, não. Que o sistema de saúde de Eunápolis não apresenta condições de gerir de forma satisfatória o hospital é fato que pode ser facilmente constatado.

Inaugurado no fim dos anos 70 por ACM, mas iniciado no governo de Roberto Santos, o HGE foi transferido para a gestão municipal através de uma manobra do governo megalomaníaco de Paulo Dapé. Quem trouxe o problema para o nosso quintal foi o ‘homem da saúde’. 

Mas, independente dos devaneios administrativos dos nossos prefeitos, o problema é que o poder público municipal é absolutamente incapaz de administrar uma unidade médico-hospitalar que atende (ou deveria atender) pacientes de mais de 10 cidades e ainda os pacientes poli-traumatizados das ocorrências registradas em um raio de mais de 100 quilômetros das BRs 101 e 367, na área de influência de Eunápolis.

E se tudo isso é pouco, acrescente a incontrolável vocação que alguns dirigentes têm para desviar recursos que deveriam ser aplicados exclusivamente na saúde pública. Os recursos já não são suficientes e o quadro se agrava quando parte deles escorre pelas veias da corrupção.

A histórica incompetência de gestão e a ingerência política, que resultam na falta de médicos, medicamentos e no sucateamento da estrutura, atinge principalmente o cidadão mais humilde, aquele que não dispõe de planos de saúde e depende do SUS. “Quem paga o pato” é justamente quem não pode pagar a conta de um bom atendimento, e ainda que seja de forma compulsória é obrigado a financiar um sistema que não funciona quando mais se precisa dele.

E são esses cidadãos que estão recebendo um tratamento desumano, ineficiente e que não raro ceifa vidas, que pagam os salários e a estrutura, ainda que precária, daquela unidade. E eu gostaria, imensamente, de estar equivocada. Quantos recém-nascidos estão morrendo justamente pela falta de UTI-NEONATAL. São vidas que poderiam ser preservadas se o atendimento fosse correto. Hoje, sabe-se que as UTIs não foram implantadas nos últimos dois anos porque os salários da equipe eram “proibitivos”.

O modelo de gestão do Hospital Geral de Eunápolis, onde até vereadores (nada contra os nobres parlamentares mas tudo contra essa inversão de funções e de valores) ditam as ordens e fazem o serviço de ambulância e até o de assistente social, está desgraçadamente superado.

Ainda assim, a prioridade do atendimento depende do favor político e da presença ou não da imprensa na porta do hospital, e por causa disso alguns nobres colegas da comunicação sentem-se autoridades no assunto a ponto de querer estabelecer as normas de funcionamento para a Saúde em Eunápolis. É uma verdadeira Casa da Mãe Joana (com perdão de todas as mães Joanas do pedaço).

A porta de entrada na emergência do Hospital Geral não pode ser o conhecimento com este ou aquele vereador, muito menos a pressão necessária, mas às vezes intempestiva, de setores da imprensa. Esta semana, por exemplo, teve até uma emissora de rádio que ressuscitou uma criatura cenozóica para dar pitaco na saúde. Só faltaram as receitas e ‘mezinhas’ (os chás) do tempo das nossas avós.

Isto posto, proponho, com a ajuda dos nossos leitores, que se abra, talvez na própria Câmara de Vereadores, uma discussão salutar e civilizada onde o Poder Público Municipal, o Conselho Municipal de Saúde (que ninguém ouve falar), vereadores, e os diversos segmentos da sociedade organizada avaliem com cuidado a proposta de transferir a gestão do hospital para o Estado, com o compromisso de promover a sua revitalização a fim de oferecer um atendimento digno e igualitário à população.

É claro que alguns partidários vão dizer que a proposta traz embutida alguma conotação político-partidária, posto que o Estado também tem defeitos na sua maneira de gerir a saúde. Concordo, na verdade nada é perfeito. Mas existem casos em que a coisa tem mais defeito que perfeição. Nem a escrevinhadora é perfeita, a diferença é que eu sei disso, ao contrário das pessoas que não se dão conta que essa política dos favores na saúde está ultrapassada e ninguém aguenta mais tantas mortes por falta de atendimento adequado. 

O que há, sim, é a necessidade urgente de estancar um problema que se agrava a cada dia. Devolvendo a administração do Hospital Geral para o Estado, de onde nunca deveria ter saído, teremos a possibilidade de transformá-lo em uma unidade médico-hospitalar que justifique o seu nome e não num monstrengo que nos momentos de maior movimentação se assemelha a um circo de horrores, com perdão dos profissionais dedicados que ali prestam serviço.

Havendo bom senso, está aí uma proposta para ser analisada, pelo menos por aqueles que têm compromisso com a saúde pública, o que, espera-se, seja o caso das autoridades municipais que ora nos governam.

Em agosto do ano passado, como exemplo, a Sesab reassumiu a administração do Hospital Regional Dr. Mário Dourado Sobrinho, depois de quatro anos de administração da prefeitura de Irecê. A gestão mudou devido a alegações de má administração, queda na qualidade dos serviços prestados e as constantes reclamações, que forçavam a população local a ter que se deslocar para a capital para receber atendimento digno.

É claro que uma proposta assim mexe com aqueles que se beneficiam desse modelo de gestão e também nos interesses de gente que ganha verdadeiras fábulas para trabalhar menos tempo do que está descrito nos seus contratos de trabalho. 

No entanto, acredito que a construção de um SUS forte, que enfrente os desafios da saúde pública, não pode sofrer obstáculos nem impedimentos provocados por falsas ideologias nem pela resistência corporativa distante da necessidade dos pacientes e da sociedade.

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