Curso de cinema de Cachoeira faz 10 anos com produções premiadas

OUTRAS NOTICIAS, 08 de Out de 2018 - Vista 23 vezes.

Como um roteiro feito de repetições, em 2017 Ary Rosa e Glenda Nicácio estrearam no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, um dos mais importantes do país, o longa Café com Canela. (Fotos: Reprodução)

Twitter: @ItapebiAcontece

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Sem trânsito, sem filas, sem a correria agonienta das multidões, o tempo passa de um outro jeito nas cidades pequenas. Dá para botar mais coisas dentro dele. “Se você soubesse tudo que eu faço num único dia, você não ia acreditar”, ri Ary Rosa, como uma maneira de começar a explicar como dois filmes grandes nasceram no curto intervalo de um ano.
 

Como um roteiro feito de repetições, em 2017 Ary Rosa e Glenda Nicácio estrearam no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, um dos mais importantes do país, o longa Café com Canela. Foram premiados. Em 2018, Ary Rosa e Glenda Nicácio estrearam no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, um dos mais importantes do país, o longa Ilha. Foram premiados.
 

E voltaram, nas duas vezes, para Cachoeira, no Recôncavo baiano, onde vivem e trabalham. Nascidos em Minas Gerais, nas cidades vizinhas de Pouso Alegre e Poços de Caldas, vieram se conhecer no Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), onde há 10 anos foi criado o primeiro curso de cinema em uma universidade pública do Norte e Nordeste.
 

Na última semana de setembro, começou mais um ano letivo. A coordenadora Angelita Bogado recebeu os calouros exaltando particularidades daquele curso. “A gente está aprendendo a fazer cinema de um jeito não só colaborativo, mas em que a experiência do lugar é muito importante. Os filmes feitos hoje pelos nossos alunos não poderiam estar sendo feitos em outro lugar. A cidade não é pano de fundo, não é cenográfica. As produções que saem daqui abarcam a um só tempo a vida vivida e a vida imaginada”. 
 

Glenda e Ary concordam tanto que resolveram, depois de formados, permanecer em Cachoeira. “O cinema que a gente  escolheu fazer nasce não de um processo industrial, mas de tentar trazer outras possibilidades a partir de uma realidade muito concreta. Sempre tivemos consciência de que fazer cinema aqui era diferente e demandava um desenho de produção diferente. Mas tem também a parte estética. A história da cidade fica o tempo todo pulsando, a comunidade também”, conta Glenda.
 

Em 2011, um ano depois de ingressar na UFRB, eles criaram, ao lado dos amigos Henrique Roza e Márcia Souza, a Rosza Filmes Produções. Era uma maneira de dar uma “resposta à universidade que nascia no Recôncavo da Bahia”, diz Ary, como um movimento  de causa e efeito. Com a morte de Henrique e a saída de Márcia, ficaram os dois. 
 

A produtora está registrada em São Félix, é sediada em Muritiba, e eles filmam em Cachoeira. As cidades são vizinhas.  Nos primeiros anos, penaram até se entender com os mecanismos dos editais.  Em 2014, quando já estavam para se formar, venceram um edital com recursos dos governos federal e estadual, com Café com Canela. 
 

Mais de 200 pessoas envolveram-se na produção do longa, que promoveu oficinas  de cenografia e figurino na região e testes de elenco com atores profissionais e não profissionais da comunidade. Era um modo afetuoso de fazer um filme sobre afeto. 
 

A história da mulher que perde o filho e o jeito de continuar vivendo até ser resgatada por uma ex-aluna comoveu o júri popular do Festival de Brasília, que o sagrou melhor filme da premiação. Levou também os candangos de  melhor roteiro para Ary e Glenda e de melhor atriz para Valdineia Soriano, que vive a mãe devastada. 
 

Cinema negro
 

Em agosto, o filme estreou na TVE e entrou em circuito comercial em todo o país. Terminou por revelar um outro feito. Era a primeira vez, em 34 anos, que um longa nacional de ficção dirigido por uma mulher negra entrava em cartaz no país. Glenda reconhece o marco, mas dispensa os parabéns sorridentes que volta e meia recebe. “É algo assustador, trágico. Não dá para celebrar isso. Você vai para qualquer festival e encontra muitas realizadoras negras, gente que está fazendo cinema há muito mais tempo do que eu, inclusive. Mas podemos celebrar as mudanças, a conquista dos espaços”. 

Imagem: Reprodução


 

A equipe de produção e o elenco de Café com Canela são majoritariamente negros, assim como a cidade que inspira o longa. Em Cachoeira, 87% das pessoas declaram-se como pretas e pardas. 
 

Por conta disso, Ary acredita que essas escolhas, marcadamente políticas, acabam sendo de algum modo naturais. “A partir do momento que o filme se descola daqui e ganha outras realidades, essa reflexão acaba ficando mais forte, porque há uma carência. As estatísticas são gritantes. Mas aqui a maioria das pessoas é negra. É o que a gente vê quando está nas ruas, na universidade, quando vai tomar uma cerveja”.  
 

Para gravar Ilha, foram da beira do rio Paraguaçu  para a beira do mar. O longa conta a história de um rapaz da periferia que sequestra um cineasta para que faça um filme sobre sua vida. Com produção mais enxuta, que reuniu cerca de 40 pessoas, ficou pronto em pouco mais de um ano. Na frente e atrás das câmeras, novamente corpos negros, em sua maioria.  
 

Única produção baiana na mostra competitiva nacional do Festival de Brasília, Ilha levou os candangos de melhor roteiro, melhor ator (para Aldri Assunção) e melhor longa no Prêmio Zózimo Bulbul, seletiva que homenageia a trajetória daquele que é considerado um dos principais nomes do cinema negro no Brasil.
 

Mas não se falava muito nele no curso de cinema de Cachoeira. Os professores também não costumavam levantar  discussões raciais. Ary e Glenda não lembram de nenhuma vez que falaram sobre o tema de modo  mais aprofundado nas aulas. 
 

Para tentar ocupar essa ausência, foi fundado, em 2010, o Coletivo Tela Preta. Larissa Fulana de Tal, uma das idealizadoras, lembra do choque que sentiu ao chegar a Cachoeira, cidade preta como Salvador, onde nasceu, e de isso não estar pautado na sala de aula. Queriam dela um repertório que não tinha. Foi conhecer a obra de Glauber Rocha mas também começou a buscar referenciais da presença negra nas telas e atrás das câmeras.  Foi quando conheceu Zózimo e o Encontro de Cinema Negro que leva seu nome.
 

No coletivo, ao lado de outros estudantes, começou a discutir também a dinâmica de produção no cinema. “Os estudantes negros vão, em grande parte, para a produção. Não que seja ruim, mas a gente sabe quem carrega o peso. Quando entrei na faculdade, em 2009, ninguém ali nunca tinha pegado numa câmera, mas de repente quem tava ali dirigindo o filme era a galera branca. Naturalmente você vai sendo colocado em alguns lugares”.
 

Fizeram ainda dois curtas, Cinzas e O Som do Silêncio, lançados em festivais, mas hoje funcionam mais como um espaço de debates, de “acolhimento de narrativas”, diz Thamires Vieira, também egressa da UFRB, que entrou no grupo em 2015.
 

E já que “não dá para viver de cinema sem CNPJ”, como atesta Larissa, ela montou, ao lado de Thamires, Clarissa Brandão e Daiane Silva, a Rebento Filmes. Estão de mudança, terminando de pintar uma sala num casarão no bairro da Saúde, em Salvador.  Ali, querem estar no lugar de autoras, propondo os próprios projetos. 
 

Juntas, produziram a série Diz Aí: Afroindígena – que acompanhou o cotidiano de jovens negros e indígenas e está no ar no Canal Futura – e têm dois projetos em andamento: o longa documental Mulheres do Bando, sobre as atrizes negras do Bando de Teatro Olodum, e a série documental Mãe Preta, que quer retratar o cotidiano de mães negras.
 

Interiorização


 

De volta a Cachoeira, uma outra produtora surgiu na esteira da criação do curso de cinema. É a Tribuzana Filmes, da soteropolitana Camila Gregório, que está prestes a se formar. “Entendo a importância de trazer investimentos para o interior, para que a gente consiga produzir aqui cinema de grande porte”. 
 

A Tribuzana tem um ano, ainda engatinha, mas é como uma materialização da certeza que Camila tem de que vai permanecer por lá. “Meu plano é esse. Parece uma coisa impossível para as pessoas permanecer em uma cidade pequena fazendo cinema. E é muito difícil mesmo, mas faz parte do nosso objetivo nos manter aqui para pensar a interiorização. Além disso, sou apaixonada pela cidade. Seria uma outra pessoa se não tivesse passado por aqui”.
 

Camila costuma falar no plural apesar de a Tribuzana ser a produtora de uma mulher só. Mas está junto a outros quatro colegas no coletivo Feito a Facão, que foi premiado no ano passado na mostra universitária do Festival de Brasília com o curta Fervendo, que conta a história de uma gravidez indesejada e uma tentativa de aborto.
 

Em novembro, Cachoeira vai sediar mais uma edição do Panorama Coisa de Cinema, e Camila está à frente da curadoria local. Alguns filmes feitos na cidade estarão na mostra. Apesar da produção diversa, ela conta que consegue ver uma unidade nos realizadores. “Tem um desejo de pensar um cinema mais político, mais coletivo, e isso fica visível na tela. São roteiros pensados para atingir diversos públicos, não só o de festival, e o próprio casting dos atores tem uma representatividade feminina, negra”.
 

Em 2008, a cidade passou a ter um curso de cinema, mas não tinha, propriamente, um cinema. Construído em 1922, o Cine-Theatro Cachoeirano (antigo Glória) estava fechado há mais de 20 anos. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) acabou comprando o prédio, com a intenção de incorporá-lo à universidade.
 

A previsão era que o equipamento fosse reinaugurado em 2011, mas as obras só foram finalizadas em 2014. A administração do espaço ficou a cargo da prefeitura, que tem uma parceria informal com a UFRB, como explica o cachoeirano Samir Suzart.
 

O primeiro filme que Samir viu na vida foi ali naquele cinema, quando tinha 6 anos. Foi acompanhado da irmã assistir aos Trapalhões.  Enquanto crescia, o prédio ia se acabando. Foi, ele mesmo, estudar cinema na UFRB e, agora, já formado, administra o lugar, com capacidade para 180 pessoas. Por ali exibem-se filmes, claro, mas também shows e peças de teatro.
 

Até o final do ano, não há mais vagas  aos fins de semana.  Vez e outra, quando na tela grande estão estrelando moradores da cidade, faz fila na porta do cinema.
 

A poucos passos dali, dezenas de câmeras mostram-se aos passantes, abrigadas no Museu do Cinema.  O rico acervo foi reunido por Roque Araújo nos 60 anos em que trabalhou como assistente de câmera e diretor de fotografia. Entre milhares de equipamentos, rolos de filme e cartazes, há um papel colado na parede do quintal. É uma lista de filmes feitos em Cachoeira, escrita com hidrocor:  Montanha dos Sete Ecos, O Milagre dos Pássaros, Tenda dos Milagres, Jubiabá, Pau Brasil, O Mágico e o Delegado, Iaô, Boa Morte, Massapé, Café com Canela. 
 

O cinema também se espalha pela cidade em exibições ao ar livre nas praças, promovidas pelo Cineclube Mário Gusmão e pelo Festival Cachoeira.Doc, criados há 10 anos por professoras da UFRB. O cineclube, que homenageia o icônico ator cachoeirano, é voltado ao cinema brasileiro e à crítica cinematográfica e o festival investe em documentários. Este ano, por falta de recursos, não aconteceu a 9ª edição do evento.
 

Outro olhar, outra Bahia
 

Para Rafael Carvalho, doutor em comunicação e cultura e crítico de cinema de A TARDE, o curso de cinema de Cachoeira tem gerado uma produção desvinculada do “padrão estético da capital”.  “Um filme como Café com Canela coloca o Recôncavo baiano no mapa cinematográfico brasileiro e as pessoas passam a se referir a essa nova geografia que não passa pelos cartões-postais que estamos acostumados a ver na tela referentes à Bahia”. 
 

Ele lembra que no ano passado, quando o Festival de Brasília criou a mostra universitária, cinco dos 20 curtas selecionados eram baianos, e quatro tinham sido produzidos por alunos de Cachoeira. O Arco do Medo, de Juan Rodrigues, venceu como melhor filme, e Camila ganhou o prêmio de melhor direção.  Este ano, foram três curtas baianos selecionados, dois de Cachoeira (Sair do Armário, de Marina Pontes, e Mãe?, de Antônio Victor).
 

Entre ficções, documentários e filmes experimentais feitos por alunos e ex-alunos da UFRB, ele destaca  particularidades, especialmente a “tendência para se discutir temáticas de gênero e raça”. “Dentro de uma universidade em que a grande maioria dos alunos são negros, é evidente que a produção saída de lá vai colocar em questão  as inquietações de um grupo social historicamente afastado da produção de imagens enquanto sujeitos e donos de suas próprias narrativas. É uma produção que cria a possibilidade de descolonizar o próprio cinema, diversificar sua linguagem e oferecer ao público um novo olhar sobre o mundo”. 
 

 
Por:  A Tarde

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