Imagem Reprodução: Redes Sociais
Vendidas nas redes como “Mounjaro do Paraguai”, canetas emagrecedoras proibidas no Brasil se espalham sem controle, lotam anúncios pagos e já levam pacientes da promessa de milagre à UTI.

No último mês, uma mulher foi parar no hospital em estado grave após usar uma “caneta emagrecedora” comprada com a mesma facilidade de um fone de ouvido nas redes sociais. O produto atende pelo nome de Lipoless, mas circula no mercado informal com um apelido que dispensa explicações: “Mounjaro do Paraguai”. A estratégia é simples e recheada de cinismo: batizar o ilegal com o nome de um medicamento conhecido, como se a semelhança no apelido pudesse substituir autorização da Anvisa, bula ou qualquer traço de responsabilidade.
Proibida no Brasil desde o ano passado, a substância atravessa a fronteira sem fiscalização, é vendida sem receita, sem controle sanitário e com promessa de milagre. O resultado não emagrece estatística: engorda os números de internações e escancara um novo e perigoso problema de saúde pública.
Uma simples busca do Jornal Metropole na biblioteca de anúncios da Meta revelou mais de 300 publicações patrocinadas, oferecendo o produto no Facebook e no Instagram, tratado como mercadoria comum, dessas que se compra com um clique. Nada de alerta, receita ou controle sanitário. Só propaganda paga, promessa de milagre e a normalização do ilegal desfilando livremente no feed.
Do Pix à UTI
Ainda assim, o comércio segue escancarado. Em uma apuração da reportagem, o que se encontrou foi um festival de promessas sedutoras: entrega rápida, produto “importado” chegando à porta de casa e um grande cardápio de opções. Os preços variam de R$ 632 a quase R$ 3 mil. Receita médica? Opcional. Em alguns anúncios, a situação chega ao absurdo de o próprio cliente escolher a dosagem, como quem monta um pedido em aplicativo de comida.
Outras marcas também aparecem no radar da irregularidade. Para esta reportagem, foram realizadas conversas reais com negociações, selecionando três vendedores, que anunciam vendas ilegais publicamente em suas redes sociais, com um cardápio amplo de produtos, indo de itens de perfumaria e eletrônicos até medicamentos clandestinos.
O processo é estarrecedor: o vendedor envia as marcas e os valores – “Tizerc por R$ 1.300, TG R$1350 e Retratutida R$ 2.300”– todas proibidas pela Anvisa. Na hora do pagamento é muito simples, os valores podem ser pagos por Pix ou cartão, parcelado em quantas vezes o cliente quiser, incluindo a porcentagem da maquininha. O processo é parecido como uma venda qualquer, com entrega em domicílio, feita pelo próprio vendedor. Algo muito parecido a um fast food de canetinhas paraguais.
Para fornecer uma suposta segurança ao comprador, o vendedor descreve que o medicamento é refrigerado, mas sem detalhes de como é mantida a temperatura. Como tudo é um risco, o comerciante exige 100% do valor antes do envio, alegando ser “sob encomenda”, que talvez nem chegue até o cliente.
Quando colocado na balança, os números são ainda mais alarmantes. Segundo informações fornecidas pela Receita Federal à reportagem, foram apreendidas 1.458 unidades destes medicamentos na Bahia em 2025, um aumento de mais de 2.000%, se comparado com 2024, quando o Fisco reteve 67 itens. No país, foram 30.011 unidades ano passado. O resultado desse mercado sem freio já começou a aparecer nos hospitais. E, enquanto isso, nas redes sociais, a vitrine segue aberta.
Quando o rótulo engana e a saúde paga
Tais medicamentos como o Lipoless são vendidos como se fossem Tirzepatida, a mesma substância do Mounjaro, indicado para o tratamento do diabetes tipo 2 e utilizado, sob prescrição, para tratar obesidade. O detalhe nada irrelevante: não têm registro na Anvisa. Na prática, não há confirmação oficial sobre o que a canetinha paraguaia contém, em que concentração a substância foi produzida e nem sob quais condições foi fabricada, armazenada ou transportada. Traduzindo: o consumidor vira cobaia.
A origem do produto ajuda a explicar o impasse. A patente da Tirzepatida pertence ao laboratório norte-americano Eli Lilly, o que impede legalmente sua fabricação por outras empresas. Porém, uma farmacêutica do Paraguai passou a produzir versões próprias da substância, proibidas no Brasil justamente porque o país respeita a legislação internacional.
Ainda assim, o esquema opera a pleno vapor. As canetas cruzam a fronteira com o Paraguai em rotas que pouco diferem do contrabando de qualquer mercadoria ilegal. Motoboys fazem o transporte inicial, intermediários cuidam da redistribuição e, quando a fiscalização aperta, surgem tentativas mais rudimentares: substâncias amarradas ao corpo ou escondidas em caixas, porta-malas, no estofamento de carros e ônibus, em fundos falsos e até dentro de pneus, como já flagraram a Receita Federal e a Polícia Rodoviária Federal (PRF).
O brasileiro que compra essas canetas de forma irregular pode ter quase a certeza de que está adquirindo um suposto medicamento que entrou no país sem qualquer controle de refrigeração e fora das condições adequadas de uso. No melhor dos cenários, o efeito prometido não aparece. No pior, o risco é de danos reais à saúde.
Ciência fora da caixa
Especialistas lembram que, sem avaliação sanitária, é impossível garantir a segurança do produto. Não há controle bioquímico, não há garantia contra contaminação, não há monitoramento das dosagens. E o risco se multiplica quando o uso é feito sem qualquer prescrição médica.
O médico hepatologista Raymundo Paraná, afirma que recebe constantemente pacientes que utilizam injeções de Tirzepatida e Liraglutida, que sequer são comercializadas no Brasil, o que indica serem manipuladas. “A Medicina das redes sociais é uma falsa Medicina, com várias pessoas que não têm condições técnicas, espalhando ‘feitiços’ para vender certos tratamentos. Redes sociais espalham o estereótipo de uma pessoa magra a qualquer custo, mesmo que entregue a sua saúde”, pontuou Paraná.
Segundo Paraná, com a crescente onda de bebidas com metanol, existe uma preocupação maior entre os brasileiros para consumo de destilados, mas não existe o mesmo cuidado com canetas emagrecedoras comercializadas ilegalmente. Para ele, “ninguém toma o whisky do Paraguai, mas muitas tomam remédios do Paraguai”.
Na rota do contrabando, o Nordeste vira alvo
Na última sexta-feira (23), uma quadrilha foi presa em Guarulhos, em São Paulo, com uma carga de canetas emagrecedoras avaliada em cerca de R$ 1 milhão. O material, que saiu do Paraguai, seria distribuído em cidades do Nordeste.
A apreensão foi feita após investigação que apontou o uso de veículos adaptados para esconder os produtos e burlar a fiscalização. Além do crime de contrabando, medicamentos desse tipo, quando entram no país de forma irregular, geralmente são transportados sem controle de temperatura e fora das exigências da Anvisa, o que compromete a eficácia e pode provocar efeitos adversos graves.
Esta matéria foi produzida pelo Jornal Metropole e veiculada originalmente em 29 de janeiro de 2026.
Reprodução: ItapebiAcontece.






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