No dia de Exu, ebó coletivo marca protesto contra navio no Porto de Salvador

Salvador
04 de Novembro de 2019 19h11

Ato ocorre no Porto de Salvador até às 19h; embarcação não abriu hoje

Twitter: @ItapebiAcontece

Imagens: Reprodução

Toda segunda-feira é dia de Exu. Ele está por todos os lados, em busca do que lhe é oferecido, defendem sacerdotes do Candomblé. Não à toa, a oferenda dedicada ao orixá, nesta segunda (4), são corpos vivos. Os corpos negros da Frente Nacional Makota Valdina que formam o ebó coletivo. E eles se oferecem simbolicamente a Exu, no Porto de Salvador, no Comércio. 

Hoje não há matança ou despacho, mas o repúdio à demonização do Senhor do Corpo, assentado a poucos metros dali, na Baía de Todos os Santos. Mesmo lugar onde está atracado há dez dias o Logos Hope - navio cuja organização afirmou que a capital baiana é “conhecida pela crença das pessoas em espíritos e demônios”. A embarcação, administrada pela organização alemã de origem cristã Good Books For All (GBA), abriga a maior livraria flutuante do mundo. 

Por isso, o ebó é a resposta, explica a educadora social e ekede Lindinalva de Paula, 57, uma das que está à frente do coletivo. “Estamos oferecendo nossos corpos pela cultura de paz”, adianta ela, nos primeiros minutos do ato, iniciado às 10h. E explica que as oferendas são tão criminalizadas quanto Exu, de quem afasta qualquer relação com o demônio. 

 

“Assim como a oferenda, os orixás são demonizados e discriminados. Quase uma criminalização de nossa cultura. Para nós, do candomblé, a oferenda tem muitos sentidos. Hoje nossa oferenda é por pedido da paz que eles deveriam pregar ao redor do mundo”, diz, ainda em referência aos organizadores do Logos Hope, que ficou aberto à visitação até este domingo (3). O CORREIO não conseguiu contato com os administradores do navio, que segue atracado. 

 

Guiado por Exu
Ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum, terreiro que funciona há 38 anos no bairro de Itapuã, Mãe Jaciara Ribeiro diz que o povo de santo recebeu a declaração do Logos com “toda indignação”. Nem as desculpas da GBA resolveram, diz. Jaciara garante ainda que Exu está “nadando e resolvendo”. Ela explica que, no candomblé, o visível e o invisível se misturam.

Mesmo antes de chegar Salvador, em 25 de outubro, Jaciara afirma que o Logos já sofria a influência do orixá. “Exu guiou. E ele está aqui, sobre o assentamento dele. As pessoas precisam respeitar o nosso culto, a nossa história, os orixás”, diz ela, ao citar a descoberta arqueológica afundada em uma área que fica entre a Codeba e o Ferry Boat.

Jaciara pontua, contudo, que, de cristãos a evangélicos, ateus e agnósticos, cada um sofre a consequência dos próprios atos. “O tempo é o senhor de tudo. Quem sabe as pessoas compreendam um dia que nós não cultuamos demônios e que absolutamente todos nós colhemos o que plantamos. Em nome de tudo isso, somos o ebó coletivo, vestimos branco e pedimos paz”.

 

Ebó
Mais do que a oferta de comida ou objeto a um orixá, arriar uma oferenda envolve sentimento e preparação, defendem pais e mães de santo. Aos adeptos das religiões de matriz africana, o ebó é sagrado desde preparação. Para além disso, é algo que pode ser ofertado tanto para o bem, quanto para o mal, explica o doutor e professor do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ordep Serra.

“Uma das nomeclaturas de Exu, no candomblé,é Senhor dos Corpos. O ebó, em iorubá, significa oferenda. As pessoas julgam como sendo algo maléfico, mas isso não é verdade. Você pode fazer um ebó com a intenção A, B ou C. É um ato religioso que pode ser negativo ou positivo”, diz.

Quanto ao ebó coletivo em resposta ao post discriminatório do Logos Hope, interpreta: “Para mim, é meio que despachar o navio. Tipo ‘vai pra longe com a sua demonização’, neste caso, seria essa oferenda, mal recebida após aquela publicação”.

Para a professora e ekede Amanaiara Conceição Miranda, 48, a declaração feita é consequência de uma “colonização do saber”. Afirma que o “eurocentrismo”, ou seja, a valorização da cultura branca e de origem europeia, autoriza uma “investida contra religiões de matriz africana”, a exemplo do candomblé.

“Nos demos uma educação colonizadora. E isso é o que condiciona esse tipo de absurdo. Historicamente, sofremos disso, porque há uma colonização da educação”, opina.  

E até quem está longe de praticar o candomblé concorda. Pastor protestante, Djalma Torres participou do início do ato. Comenta que a declaração é “péssimo gosto” e, enquanto for tolerada, “haverá guerra” entre os homens. “São afirmações pecaminosas, que não considera a pluralidade das religiões, dos povos, da própria vida”. 

O pastor reflete ainda que, seja qual for a orientação religiosa, há possibilidade de praticar a crença em qualquer lugar do mundo. Djalma conclui o raciocínio ao afirmar que Salvador é de Jesus para os cristãos, Javé para os judeus e Oxalá para o povo de santo.

 

ItapebiAcontece / Correio 24horas

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