Imagens: Reprodução Web
- Autoridades americanas dizem que candidato derrotado nas eleições e família devem receber residência permanente. Ação da Casa Branca, que providenciou o jato em que o senador fugiu, pode prejudicar relação entre Washington e Brasília

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência que enfrenta duas investigações sob suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção, está em Miami, na Flórida com um status migratório temporário concedido por ordem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e deve receber residência permanente no futuro, segundo autoridades americanas.
O parlamentar fugiu do Brasil após perder a eleição presidencial no domingo (25). Agentes de fronteira americanos permitiram que ele e sua família entrassem nos EUA sob o status migratório de admissão condicional, conhecido como “parole”, depois que desembarcaram em Miami em um jato particular na manhã de quarta-feira (28), de acordo com uma autoridade de Washington.
O jato foi providenciado por um funcionário da Casa Branca. Mais tarde naquela tarde, Trump disse que Flávio havia recebido “uma autorização” para entrar no país.
A Casa Branca e o Departamento de Estado encaminharam ao Departamento de Segurança Interna perguntas sobre o status de admissão condicional de Flávio e o envolvimento de Trump. O órgão afirmou que o senador e sua família “foram recebidos e inspecionados pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, conforme as leis e os procedimentos migratórios aplicáveis. Ao término da inspeção, [Flávio] Bolsonaro e os familiares que o acompanhavam foram liberados”.
Um registro público do governo americano sugere que o senador apresentou, ao chegar, um passaporte diplomático brasileiro cancelado, segundo análise do The New York Times. O registro menciona um documento com um número emitido no Brasil que, de acordo com informações públicas, está vinculado ao passaporte diplomático do congressista.
O Departamento de Estado afirmou, por meio de uma autoridade, na terça-feira (27), que pretendia emitir vistos para Flávio e sua família, permitindo que entrassem no país. A Casa Branca disse o mesmo naquele dia, citando um membro do governo.
O governo americano concede o status de admissão condicional a pessoas “por razões humanitárias urgentes ou por benefício público significativo”, segundo portal da gestão federal. Esse status permite que uma pessoa permaneça no país enquanto é “tratada como requerente de admissão”, afirma o site.
Espera-se que, em algum momento, o candidato derrotado solicite o status de residente permanente nos EUA, conhecido como green card, disse uma autoridade americana. Normalmente, isso ocorreria depois que ele recebesse um visto de imigrante. O pedido de green card de Flávio seria processado rapidamente, assim como ocorreu antes com seu irmão mais novo, segundo integrante da gestão.
Os membros do governo Trump falaram sob condição de anonimato para discutir questões diplomáticas delicadas.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) mora no Texas, mantém laços estreitos com o governo Trump e recebeu o status de residente permanente em julho. O processo leva anos para a maioria dos imigrantes, mas o ex-parlamentar obteve aprovação acelerada, disse uma autoridade americana.
Flávio Bolsonaro partiu rumo aos Estados Unidos após ser intimado pela Polícia Federal na segunda-feira (26) a entregar seus passaportes —ele é alvo de inquérito que apura seu envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro com bets.
Embora Flávio, senador que ocupa cargos públicos há mais de duas décadas, não tenha sido formalmente acusado de nenhum crime, ele perderá sua imunidade parlamentar no início de 2027, com o fim de seu mandato no Senado. A partir daí, poderá ser processado em decorrência de várias investigações criminais.
Na noite de terça (27), ele voou da Argentina para o Equador, onde a aeronave foi reabastecida, e depois seguiu para Miami, sempre em um jato particular providenciado por Jason Miller, funcionário de comunicação da Casa Branca, segundo uma pessoa a par da logística. Eduardo, irmão mais novo de Flávio, manteve contato com Miller. O plano foi colocado em prática na segunda (26), depois que Flávio recebeu a ordem de entregar seus passaportes, disse a pessoa.
No domingo, o postulante do PL foi derrotado em uma virada histórica conquistada nas urnas pelo presidente Lula.
Miller, listado como funcionário especial do governo dos EUA, não quis comentar, e a Casa Branca limitou-se a citar declarações públicas de Trump, que não trataram do jato particular. O Wall Street Journal havia noticiado o envolvimento de Miller. Ele é aliado da família Bolsonaro e afirmou ter sido detido brevemente durante uma visita ao Brasil em 2021.
Depois de desembarcar em Miami, Flávio declarou-se líder do Brasil em uma carta golpista.
Às 10h23 de quarta (28), no horário de Brasília, o senador foi visto desembarcando de um pequeno jato em um aeroporto privado nos arredores de Miami, acompanhado da família. O grupo foi conduzido a um veículo escuro pouco após sair do aeroporto, protegido por guarda-chuvas.
A viagem ocorreu ao longo de 24 horas frenéticas, durante as quais autoridades e jornalistas de vários países tentaram descobrir onde ele estava e como chegaria aos Estados Unidos. Flávio entrou na Argentina no fim da noite de terça (26) antes de atravessar a América do Sul no avião particular.
Em uma carta golpista publicada nas redes sociais na tarde de quarta (28), o parlamentar disse ter deixado o Brasil por enfrentar perseguição política e agradeceu a Trump e ao presidente da Argentina, Javier Milei. Depois de inicialmente se declarar o “legítimo presidente eleito” do Brasil, Flávio apagou a publicação e a republicou usando a palavra “líder”.
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como líder do Brasil”, disse. Sem apresentar provas críveis, alegou que a eleição que perdeu havia sido fraudulenta e que era alvo de uma “caça às bruxas” promovida pelo Judiciário brasileiro.
Cartas de Flávio Bolsonaro têm ‘Brazil’ e recuo de ‘presidente eleito’
Entre a primeira e a segunda carta, trocou um brasão usado até 1967, onde se lê “Estados Unidos do Brazil” pelo atual, que tem escrito “República Federativa do Brasil”

A ajuda da Casa Branca a Flávio pode agravar as tensões entre o governo Trump e Lula, que acusou o mandatário americano de interferir nos assuntos internos do Brasil.
Questionado sobre Flávio na quarta (28), Trump disse: “Demos a ele uma autorização para entrar no país, então veremos. Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, com certeza”.
Nesta quinta (29), Trump se recusou a dizer quem havia sido o legítimo vencedor da eleição e afirmou não ter tomado partido na votação porque Lula lhe pedira que não o fizesse. “Achei que a eleição foi um enorme constrangimento para o povo brasileiro”, disse.
Neste ano, o Departamento de Estado, sob o comando do secretário de Estado Marco Rubio, tomou medidas em relação ao Brasil após a pressão dos dois filhos de Bolsonaro, noticiou o The New York Times.
Os dois são filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena de 27 anos e 3 meses em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Flávio Bolsonaro não reconheceu a derrota na eleição desta semana e, inicialmente, usou a prorrogação nos horários de votação no domingo para afirmar que pediria a anulação do resultado.
A mudança de horários, porém, afetou apenas 0,03% dos votos, e as autoridades eleitorais brasileiras disseram que ela não fez diferença no resultado, considerando a margem de vitória de 4,4 milhões de votos de Lula. Observadores internacionais independentes atestaram a integridade da eleição, e dezenas de países reconheceram o resultado. Estados Unidos e Argentina não estão entre eles.
Em sua declaração de quarta (28), Flávio voltou a insistir em suas queixas. Também afirmou que Lula havia usado recursos públicos de forma injusta para vencer, citando a decisão do presidente de elevar o valor do Bolsa Família na reta final da campanha. O governo Lula afirma que o aumento era uma correção inflacionária atrasada.
Flávio atravessou por terra a fronteira do Brasil com a Argentina na noite de terça (27), acompanhado da esposa, Fernanda, e de duas filhas, informou na quarta-feira a Direção Nacional de Migrações da Argentina. Segundo o órgão, ele então embarcou em um voo particular para Guayaquil, no Equador, e de lá seguiu para os Estados Unidos.
Na segunda-feira, as autoridades brasileiras deram a Flávio 24 horas para entregar seus passaportes, devido a investigações sobre seus vínculos com o advogado Willer Tomaz, de quem é amigo, acusado de lavar mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,4 bilhões) em um esquema envolvendo jogos de azar online.
Separadamente, Flávio é alvo de uma investigação policial sobre milhões de dólares que arrecadou do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, no centro de um enorme esquema de corrupção, para financiar “Dark Horse”, uma cinebiografia sobre seu pai.
Quando Flávio não entregou seus passaportes até a manhã de terça-feira (27), as autoridades brasileiras cancelaram os documentos de viagem e emitiram um alerta às autoridades migratórias proibindo sua saída do país. Não ficou imediatamente claro como ele conseguiu cruzar a fronteira com a Argentina.
A Polícia Federal do Brasil afirmou não ter registro oficial da saída de Flávio do país. Em nota, a corporação também disse que as restrições às viagens e aos documentos do senador não faziam necessariamente dele um fugitivo nem autorizavam sua prisão. A polícia agora “investiga as circunstâncias relacionadas ao descumprimento das ordens judiciais pelo senador”.
A Polícia Federal argentina também afirmou não ter registrado sua entrada. Ainda assim, as autoridades migratórias da Argentina disseram que o candidato derrotado e sua família entraram no país às 22h50 de terça-feira. Eles atravessaram de van a chamada “Ponte da Fraternidade”, que liga Foz do Iguaçu, no Sul do Brasil, a Puerto Iguazú, na Argentina.
A região é popular entre turistas devido às cataratas na fronteira entre Brasil e Argentina.
Cerca de 40 minutos depois, Flávio e sua comitiva embarcaram em um avião pertencente à Baires Fly, empresa privada que já transportou Milei.
Reprodução: The New York Times – Edward Wong , Ana Ionova , Hamed Aleaziz e Tyler Pager




Deixe uma resposta